terça-feira, novembro 15, 2005


Um comício chuvoso

Fui a um comício de Cavaco Silva. Aconteceu no adro de uma sede do PSD, que o candidato será indepen-qualquer-coisa, mas não é parvo. Chovia a tonéis. O político amador vestia uma gabardina cinzenta apertada até aos sobrolhos, que lhe emprestava uma expressão facial bastante expressiva. Comparativamente. E assim expressivo chegou, discursou e deu às de Vila Mariani - para desapontamento da população, que esperava mais dos foguetes - depois de cumprimentar meia dúzia de celebridades locais e, image oblige, dois populares. Era no país real e, naturalmente, havia comes e bebes, pelo que os comiciados ficaram pragmaticamente a comer e beber no molhado. O que, vendo bem, estava conforme à mensagem política do orador que antecedera. Ademais o candidato podia ser pouco afável, mas salvavam-se as bifanas. E o discurso, perguntam vocelências, que não se perdem com pormenores de torresmos e entremeada… pois disse que não estava ali para comentar as outras candidaturas e que a sua era serviço público. O que levou a assistência a concluir que as demais eram serviços privados. Aliás, a assistência já suspeitava: na zona, quem é laranja está servido na coisa pública e os outros servem-se em privado. Também disse que provinha de origens humildes. E fez uma pausa para os aplausos, mas sem grande sucesso: em terra de enxada, os gasolineiros são capitães da indústria, pelo que a mole de guarda-chuvas não alcançou de imediato que o candidato estava a querer ombrear. Disse ainda que sabia o que era ser povo. Eu aqui adjectivava, mas não sei se tenho direito. Afinal, só me desloquei mesmo pelas pataniscas. Nós, povo, somos cá uns garganeiros…